

Vivendo num País em que a esmagadora maioria da população é Católica, praticamente o resto tem outra religião Cristã e só uma ínfima percentagem tem outra religião ou não tem religião alguma, vivo esmagado pelos celebrações pascais.
Sendo eu ateu não irei pronunciar-me sobre a fé de cada um, porque respeito as crenças dos outros como gosto igualmente de ser respeitado pelos princípios que defendo, no entanto não abdico de tecer um ou outro comentário. Digo, respeito a fé dos outros, isto é a crença, o acreditar em algo de divino, acreditar, ou não acreditar, é um livre arbítrio.
No entanto as Religiões, como a ausência delas, e as suas atitudes perante o Mundo, a Sociedade e a Humanidade, não são sagradas e por tal podem e devem ser criticadas sempre que se ache que o divino pretende interferir com o profano, ou melhor, sempre que a religião pretende interferir com a religião, ou não religião dos outros.
Todas as religiões pretenderam e pretendem aumentar o seu número de fiéis, para isso construíram uma hierarquia aliada ao poder, ou que muitas vezes são mesmo o poder. Na sua ânsia de pensamento absoluto arvoram-se no direito de impor os seus pontos de vista aos que não são crentes da sua religião ou não são crentes de religião nenhuma. Num Mundo relativizado as Religiões insistem em impor um pensamento absoluto, por isso cresceram baseadas num pensamento monolítico, que vingou à custa do medo e da ignorância, por isso, ainda hoje, tentam manter um certo obscurantismo.
Não nego que, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, para os Católicos, alguma coisa mudou e é com agrado que se vê largos sectores da hierarquia da Igreja Católica a navegar contra a corrente, a ser mais dialogante a tentar compreender os outros sem lhe impor uma unicidade de pensamento e, o mais importante, a aprender com as desigualdades do Mundo.
Se falo mais dos Católicos é simplesmente porque é a realidade que conheço melhor, mas todas as Religiões sofrem do mesmo mal: um pensamento absoluto, a imposição da sua verdade aos outros e um fanatismo mais ou menos acentuado.
Nada me move contra as pessoas de fé, apenas contra os que continuam a tentar manter as pessoas no obscurantismo e no medo, tornando o acto de fé numa opção irracional e, quanto a mim, crer, acreditar, não é um acto irracional, mas sim racional, nenhuma opção pode ser ditada acriticamente por ninguém, mas uma opção pessoal e pensada.
Felizmente que os meus amigos que professam as suas religiões são pessoas com uma crença construída e não importada, por isso respeito profundamente as suas opções, mesmo que possa divergir aqui e ali de uma ou outra posição, nada afecta a nossa amizade, porque aprendemos a respeitar o ponto de vista uns dos outros.
Curiosamente este artigo foi iniciado a pensar no que vou escrever a seguir, mas acabei por me alongar demasiado na problemática da Fé.
Atrás das festividades religiosas aparecem os vendilhões do templo, o negócio, as palavras carregadas de boas intenções e de esperança num futuro melhor, não um futuro que nós estamos a construir, mas o futuro que uns tantos iluminados nos vão proporcionar. Evidentemente que neste campo não me refiro exclusivamente às Religiões, mas como é óbvio aos políticos, aos oportunistas da felicidade alheia. Estamos a ser descaradamente manipulados e nem nos apercebemos disso, ou simplesmente não queremos aperceber porque pensamos curto, não perspectivamos o futuro, vivemos virados mesquinhamente para o nosso umbigo.
Trocam-se mensagens, compram-se guloseimas na sociedade da abastança, dão-se palmadas nas costas e deseja-se felicidade, saúde, paz e harmonia, de repente passamos todos a ser irmãos, mas tal como nem todos os irmãos são verdadeiramente amigos e solidários uns com os outros, também esta irmandade artificial alimenta-se exclusivamente à custa da fachada, da hipocrisia. Acabada a festividade tudo volta à normalidade: intriga, ódio, desprezo, desamor, competição, etc.
Eu recuso ficar calado!
Por isso e aproveitando a contradição dos ovos da Páscoa aproveito para deixar aqui uma simples e utópica mensagem: amem-se uns aos outros, misturem-se, miscigenem-se, dispam-se de preconceitos e comecem em casa a construir o Mundo novo.
2 comentários:
Gostei muito de te ler, meu amigo!
A fé tal como nos é imposta, é algo que me baralha muito as ideias!
Não gosto muito de falar em religião, de tal forma me sinto confusa e perdida!
Fui educada segundo a religião católica, mas nunca fui praticante! Quando comecei a tomar consciência da fachada, da hipocrisia da falta de coerência, fui perdendo a pouca fé que tinha!
É estranho, mas ainda se mantêm réstias de algo que me foi “impingido” quando ainda era criança! Assim, entro no “jogo” da celebração do Natal, da Páscoa e outras celebrações do género, não por fé (…porque existem muitos pontos de interrogação…), mas por tudo que envolve as minhas crianças! A Escola, os amigos, o próprio meio em que vivo, torna para mim quase impossível, determinar as minhas convicções sem de certa forma magoar os que me rodeiam!
Como tu, respeito todas as religiões, crenças e descrenças! Desde que sejam escolhas feitas com consciência, mas como eu, andam muitos, que apenas…deixam andar o barco…não por falta de coragem, de assumirem o que são, mas porque mais altos valores se levantam! Entendes?
Claro que te entendo, eu não fui educado religiosamente, mas os meus pais nunca se opuseram às minhas escolhas, alguns dos meus irmãos escolheram caminhos diferentes e eu mesmo também, pois os meus pais eram agnósticos e eu sou ateu.
À Páscoa não ligo nada, a carga religiosa e a hipocrisia do negócio é demasiado forte para que eu possa ter uma relação pacífica com ela, ao Natal já é diferente, não o celebro do ponto de vista religioso, nem na minha casa há presépios, mas pelos meus filhos sempre fiz uma festa de família, para mim é uma festa pagã em que a família se junta para conviver, muitas vezes família que não se vê durante o ano inteiro.
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